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Escrito por sara às 11h11
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HISTÓRIAS
Quando me aproximei da brinquedoteca, prontamente liberei a passagem para uma mãe que cuidadosamente auxiliava a locomoção de seu filho, segurando o suporte de ferro e prendendo a medicação quimioterápica no topo como um grande cabide ("capitão gancho"). Uma cena extremamente rotineira de hospital infantil, mas que olhando com os "olhos do coração" mudou o meu dia e se tornou inesquecível.
A criança, um garotinho de três anos de idade chamou minha atenção não somente pelo gracioso macacão que usava, mas por ter subido com seus pés pequeninos na base do suporte de ferro da quimioterapia e segurando firme sua haste. A mãe empurrava o suporte delicadamente com a mão direita enquanto com a mão esquerda segurava os fios da medicação. À medida que o "carrinho" deslizava pelo corredor e ganhava velocidade, eis que o garotinho abriu os braços como se estivesse abraçando o mundo (e de fato estava), fechou os olhos e disse alto e em bom som "estou voando". Me emocionei profundamente com esta cena mágica na qual fui presenteada. Essa criança me levou automaticamente para a fantasia de "Peter Pan". Lembrando da criança que existe dentro de nós de maneira inconsciente e na maioria das vezes negligenciada, embarquei neste sonho e deduzi que nossa viagem à "Terra do Nunca" teria o seguinte itinerário: 1. NUNCA deixe de acreditar na sua força interior e na sua infinita capacidade de criação. 2. NUNCA desista de seus sonhos. Acredito que estamos neste mundo com o propósito de sermos felizes, alcançar a realização em todas as esferas possíveis e contribuir para o bem do próximo. 3. NUNCA negligencie um minuto que seja da sua vida pois evoluímos com cada vivência, e até mesmo com a dor tiramos ensinamentos que nos colocam cara a cara com os mais diversos sentimentos, pensamentos ... mudanças. Em suma, não esqueça que a vida é feita de instantes (se olharmos atentamente nos deslumbramos como são mágicos, como perfumam e colorem nosso cotidiano). 4. NUNCA esqueça que o amor é o melhor remédio para todas as pessoas e situações. É importante lembrar que não existe contra-indicação e por isso mesmo não devemos esquecer que também precisamos dele, nos perdoando por exemplo. 5. NUNCA deixe de sorrir pois faz bem para a mente, o corpo e o espírito. Se esse garotinho com toda a sua sabedoria, enfrenta uma doença de tratamento longo e muitas vezes doloroso como a leucemia, consegue sonhar, vamos aprender com ele e veremos como nossos problemas perdem a força e nossa vida ganha vida. Vale a pena sonhar acordado, acreditar. Nós sempre vamos na direção dos passos que damos. Faça planos e os realize. Boa viagem. 
"Se ajudar uma só pessoa a ter esperança, não terei vivido em vão" (autor desconhecido)
Escrito por sara às 10h29
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HISTÓRIAS
Logo cedo quando olhei pela janela do meu quarto vi que o dia estava cinza e chovia muito. O frio intenso marcava a despedida do inverno e anunciava a chegada da estação das flores.
No hospital as pessoas falavam mais baixo do que de costume. Será que era para não competir com o barulho da chuva? Ou era esse mesmo som de águas que acalmava? Só sei que a chuva e o barulho não foram desconsiderados e se faziam presentes em algum comentário ou mesmo no silêncio de uma contemplação, nesses ricos momentos olhamos para a chuva lá fora mas a nossa visão é de dentro, do que se passa em nossos pensamentos e sentimentos mais profundos de nossa alma. Nem só de sol vive o homem. O cinza também tem sua força reveladora e instigante. É chegada a hora do almoço. Os arredores do hospital fornecem inúmeras opções de lanchonetes e restaurantes, porém, como chovia muito, optei pela comida por quilo do outro lado da rua. Passaram-se dez minutos quando vi em maior número do que o habitual, muitos profissionais de jaleco branco no mesmo local. Continuei minha refeição. Vários pacientes, inclusive alguns que havia conversado entraram também. Aí, realmente pareceu que ainda estávamos no hospital. Uma paciente se aproximou da minha mesa e acanhada pediu para sentar-se comigo. Permissão prontamente atendida. Entre uma garfada e outra ela compartilhou comigo suas expectativas por participar de um protocolo de estudos de um novo medicamento. Contou sobre os efeitos colaterais da quimioterapia e de sua luta para conseguir um doador compatível de medula óssea. Conversamos que de fato, a falta de informação cria um espaço enorme que é fatalmente preenchido por medos, preconceitos e até alienação. A paciente disse que não tinha nenhuma informação sobre o linfoma e tão pouco sobre o transplante e ressalta: "Só quando sentimos na pele percebemos a extensão do quanto isso gera sofrimento" . Digo que ainda existem pessoas que acreditam que o tranplante de medula óssea é para "tirar algum pedaço do corpo", mas o procedimento é via sangue. O candidato à doação procura um hemocentro, por exemplo a Santa Casa de São Paulo e informa que deseja se cadastrar. É coletada uma pequena amostra de sangue que fica armazenada para que seja verificada a compatibilidade com um paciente que aguarda na fila de espera. Havendo a compatibilidade o doador é acionado pelo hemocentro para realizar a doação. É importante salientar que a medula óssea ("fábrica" do sangue do nosso corpo) se regenera em pouquíssimo tempo depois da doação. Ainda entre uma garfada e outra, lembrei que minha família era da época que não se podia pronunciar a palavra "câncer" em casa e quando era inevitável, sussurravam: "a coisa feia", "aquilo lá" e por aí vai. A paciente comentou que também passou por isso e que no caso dela teve uma perda significativa, pois o marido não queria mais "namorá-la" ou "encostar perto" com medo de "pegar" câncer. O casamento acabou e ela vive com os três filhos desta relação. O sorriso no rosto e o brilho nos olhos são sempre presentes e levam esperança, são igualmente contagiantes. Com tanta marca e experiência sentida na "pele" como ela mesma diz, não se fechou para sua dor e encontrou no voluntariado em hospitais e na participação em campanhas informativas para mobilizar as pessoas a serem doadores de medula óssea, o combustível necessário para beneficiar a si e ao próximo. Me lembro de um paciente que certa vez me disse que a informação é muito importante pois sem ela, um grão de arroz torna-se um grande obstáculo no caminho. Pensando nisso, a ABRALE no dia 28 de setembro realizou uma campanha em prol de melhores tratamentos e acesso à medicamentos de alto custo, que teve como carro chefe o slogan: "LINFOMA É CÂNCER. INFORMAÇÃO É VIDA". A manifestação foi realizada no vão livre do Masp. Grande parte da equipe se mobilizou para divulgar o abaixo assinado que teve como meta atingir cinco mil assinaturas para que a nossa presidente entregue para o ministro da saúde. MUITO OBRIGADA à todos que participaram direta ou indiretamente da campanha e que sem dúvida nos ajudaram nesta somatória de forças em mais esta batalha a favor da VIDA.

Escrito por sara às 10h11
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HISTÓRIAS
Os DEPOIMENTOS na página inicial do site da ABRALE representam ricos registros de histórias reais de pacientes, familiares e até profissionais da saúde no enfrentamento das doenças onco-hematológicas. É possível encontrar relatos de experiências intensas, com identificação e até mesmo com fotos. É sem dúvida um compartilhar que faz toda a diferença na qualidade de vida de cada um.
Tive contato com mais uma dessas experiências intensas e valiosas. Assim que entrei no quarto, fui surpreendida pela imagem do paciente sentado em seu leito pintando um quadro. Na mesinha de canto, muitos potes de tinta e pincéis. Na parede, quadros de diferentes temas, cores e formas. Por alguns segundos a dúvida tomou conta de mim e em silêncio me questionei: "Será que estou em um ateliê?". Cumprimentei o artista. Já nos conheciamos desde o início do diagnóstico e fases do tratamento da leucemia. Os campos aí já se misturaram: paciente artista, artista paciente ... já não era tão relevante. O trabalho artístico impressiona pela sensibilidade, perfeição dos detalhes, diversidade de cores e formas. O mais tocante e surpreendente foi a revelação de que pintar era uma vontade cultivada há muito tempo e somente há apenas quinze dias atrás tornou-se realidade. Estava então, diante de mim, uma manifestação de coragem suficientemente grande para colocar em prática um sonho, uma realização. Na tela em branco são projetados pensamentos, sentimentos, sonhos que temos quando acordados, os que temos dormindo, também as frustrações, medos da vida e da morte. Cada pessoa entra em contato com esses questionamentos subjetivos de maneiras diferentes. Segundo Fiódor Dostoiévski: "A verdadeira felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz". Esse contato consigo mesmo pode ser pela arte, pela música, pela fala em análise pessoal ... sem dúvida uma importante função terapêutica. Pouco importa se o quarto do hospital virou casa, se o pintor não está no ateliê ou se o analista não está no seu consultório. O que importa é que vi cor, corpo, alma e principalmente vida. No caso das pinturas, as imagens falam por si. O autor, gentilmente autorizou o registro de imagens por foto para a divulgação neste blog, bem como seu nome.
OBRIGADA Helmuth Ribeiro pela autorização dessa divulgação e OBRIGADA pela sua arte, pois torna a nossa rotina mais leve e igualmente bela.

Contato do artista: muth.hm@uol.com.br ou muth.hm@mac.com
Escrito por sara às 11h16
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Na edição 9 - Ano 2 - Junho/Julho/Agosto de 2009 - REVISTA ABRALE, tive a satisfação de contribuir para a elaboração da reportagem: TRATAMENTO - Escreva seu blog: a palavra cura. (trechos selecionados) 
Meu caro diário ... "Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." Clarice Lispector estava com câncer quando registrou essa frase no livro Um Sopro de Vida (Pulsações), uma de suas últimas obras. De fato, ela nunca deixou de afirmar em entrevistas que escrever era aquilo que a mantinha viva ... Mas mesmo aqueles que não tem como hábito transferir seus sentimentos para a ponta do lápis ou para tela do computador podem descobrir quão saudável pode ser essa forma de expressão ... "Freud, o pai da psicanálise, descobriu a palavra cura", explica a psicanalista Regina Fabbrini, professora da PUC-SP. "É ela que nos faz humanos, pois permite uma representação do mundo, da natureza ... Esse contato íntimo acaba sendo também uma forma de desabafo, o que para muitas pessoas pode ser um processo difícil. "Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar", diz Clarice Lispector em Um Sopro de Vida (Pulsações). "Escrever é uma pedra lançada no poço fundo". Alguns gostam de divulgar informações sobre a doença, outros falam de suas rotinas, uns redigem textos objetivos e há aqueles mais subjetivos. "O importante é ser algo despretensioso, escrever tudo o que vem à mente - e deixar fluir", aconselha Sara Costa Andreozzi, psicóloga do ABRALE Móvel ... O autor dos textos também deve pensar bem antes de publicá-los, para não se fragilizar ainda mais ... Em uma sessão de psicanálise, o especialista não usa propositadamente o recurso da escrita, assim como essa prática não substitui o acompanhamento de um psicoterapeuta. No entretanto, trata-se de um caminho de autoconhecimento acessível a qualquer pessoa, esteja ela atravessando ou não uma doença ou problema familiar ... Os blogs são meios velozes de compartilhar informações e experiências. "Para pacientes em tratamento, eles criam um ponto de identificação que pode funcionar muito bem ... "Também é uma forma de sensibilizar a opinião pública sobre o tratamento das doenças onco-hematológicas", explica a psicóloga Sara Costa Andreozzi, uma das primeiras blogueiras do projeto, convidada pela ABRALE . Por fazer parte da equipe do ABRALE Móvel, iniciativa que visita hospitais para apresentar os serviços da associação, Sara tem várias histórias para contar. "São experiências intensas. É um desafio falar delas", conta. Qualquer pessoa interessada em compartilhar histórias ou informações pode hospedar seus textos. Entre em blogabrale.zip.net e, no menu à esquerda, clique em "Crie Seu Blog", preencha a ficha e escolha uma categoria. Aí é só começar a postar.
Escrito por sara às 12h39
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Recebi da BRUNA, criadora do blog "LINFOMA EMOCIONAL - compartilhando um câncer" um prêmio que homenageia os melhores blogs. 
A simbologia das cores é: - A cor azul representa paz, profundidade e imensidão.
- A cor dourada a sabedoria, a riqueza e a claridade das ideias.
- O prêmio em si representa a união entre os blogueiros.
Sou muito grata pela homenagem recebida, sem dúvida um importante incentivo. Principalmente pelo carinho destinado à Bruna e ao Tadeu, sempre juntos na alegria e na tristeza. Conheci o casal no hospital bem no início do tratamento do Tadeu e uma das lições de vida que me ensinaram é que vale a pena lutar sempre. 
É possível conferir nos endereços: www.linfomaemocional.blogspot.com e www.linfomaniaco.blogspot.com
Escrito por sara às 10h55
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Agradeço à todos pelos mil acessos ao blog até o presente momento. É com muita alegria que realizo meu trabalho e dividir com vocês é uma honra.
Escrito por sara às 11h31
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Recomendo o site da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE www.revistavortice.com.br
Nele, é possível encontrar textos como: "O poder da análise" (de minha autoria), "Quem sou eu neste divã ?" e demais publicações sobre a Teoria dos Campos do psicanalista brasileiro FABIO HERRMANN.
Escrito por sara às 22h29
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HISTÓRIAS Na sala de espera do hospital fui capturada pela imagem de um casal na qual era impossível advinhar quem era o paciente e quem era o acompanhante. Ele, cadeirante. Ela, com o braço direito engessado e com visível dificuldade de locomoção.
Fiquei absolutamente encantada com a troca de olhar entre eles, pois exprimia ternura e também agraciada com o sorriso maroto quando me contaram que estão casados há mais de dez anos. O marido explica que a esposa trata de mieloma múltiplo mas não sabe se é ela quem cuida dele ou se é ele quem cuida dela, sorri novamente. Ressalta que não se desgrudam e estão sempre juntos. Frisa que não juraram isso na frente de um padre, mas praticam esse companheirismo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe. Digo que esta questão é de fácil solução, pois ficou claro que um cuida do outro. Quando a paciente foi liberada após uma coleta de sangue, nos despedimos e contemplei a saída dos dois: ela empurrando a cadeira de rodas com a mão esquerda, ele auxiliando com as mãos e pedindo licença para conseguir driblar, como numa partida de futebol seus oponentes, no caso, competindo com o fluxo de macas, corredores estreitos, pessoas indo e vindo, rampas ... Sabemos que na maioria dos casos é a cabeça que comanda o corpo, nossas ações e direções a seguir. Mas, não podemos nos esquecer que é o coração em suas várias manifestações de amor, o grande responsável por introduzir o colorido, o perfume e a beleza das flores do nosso caminho. Ele realmente rouba a cena, é autor e ator digno de todas as honras pois nos ensina que a dor pode e deve ser amenizada. Esse caminho ou trajetória, podemos chamar de vida. Tudo depende da forma como olhamos o que está a nosso redor.

Escrito por sara às 10h18
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HISTÓRIAS
Me aproximei do leito, cumprimentei o paciente e antes de qualquer apresentação, ele aponta para o emblema do meu uniforme e diz: “Abrale. Eu já conheço de longa data menina, você nem imagina como. Eu gosto muito, me mandam revistas, calendário, papéis convidando para as palestras, bastante informação mesmo e é tão importante o trabalho de vocês”.
Agradeço os elogios e explico o meu papel junto aos pacientes. Pergunto se ele já participou de algum encontro promovido pela Abrale. Este prontamente frisa: “Eu vou ser liberado hoje daqui do hospital. Já fiz os protocolos de quimioterapia e estou bem melhor. Até poderia ir mas enquanto eu estiver usando máscara eu quero ficar quietinho na minha casa com a minha família ... É muito ruim sair de máscara, os outros ficam olhando torto, cochichando, cutucando para o outro olhar e ainda acham que a gente não percebe ...” Prossegue: “No metrô então, há muito tempo que não entro ... Da última vez passei vergonha pois ninguém chegava perto de mim com medo de pegar alguma coisa ... É um engano muito grande pois a máscara é pra gente não pegar nada deles pois estamos com as defesas baixas, é o contrário ... Eles ficam se espremendo dos lados e na minha volta fica um espaço grande vazio ... Quando ando na rua de máscara sempre algum desconhecido mais corajoso me pára e pergunta o que eu tenho ... Se fiz algum tranplante ... Eu explico que trato de leucemia e é um problema no sangue ... que tive que fazer transplante de madula óssea, e aí complica ... Eles acham que é uma operação que tem que abrir o corpo da pessoa e não é nada disso, é só tirar um pouco de sangue ... Eles acham que a gente não sente isso?” Destaca: “Ninguém pede para ficar doente e muito menos pra passar por isso ... Me sinto como se eu fosse uma árvore e alguém raspasse a ponta de uma chave de cima até embaixo e deixasse uma marca funda que não tem jeito de apagar ...” Conversamos sobre o efeito das marcas na vida de cada um e como são sentidas de formas diferentes e intensas ... E que é muito importante que tais marcas sejam compartilhadas através da fala, para que a dor possa ser diluída e ressignificada ... Indaguei que no início de nossa conversa ele mencionou que conhece a Abrale e eu nem imagino como ... Brinco que fiquei curiosa para ouvir esta história ... Ele então, depois de uma deliciosa gargalhada de criança, diz: “Eu minha filha, vou fazer quase setenta anos, mas trabalhei quase trinta anos de pedreiro e com essas mãos já ajudei a levantar muito prédio. (Toco suas mãos e sinto como são ásperas e calejadas ... lembro-me das tais marcas ... ) Hoje já estou aposentado ... Eu trabalhava na região da paulista ... Saía de um prédio e já pulava para outro ... Eu ajudei a levantar muita parede de tijolo, inclusive pra colocar elevador ... Eu trabalhei no prédio que hoje fica a Abrale, por isso conheço muito bem tudo ali ...” Destaco que ele tem motivos de sobra para participar dos encontros e até compartilhar suas histórias ... Digo que fiquei muito feliz por conhecê-lo e que estamos de portas abertas, com máscara ou sem máscara ... pois dando ou não motivos as pessoas sempre falam, pois nem Jesus agradou a todos ... E não devemos desperdiçar as oportunidades ... Agradeci a confiança por ter compartilhado comigo sua trajetória ... Antes de me despedir, o paciente comenta: “Qualquer dia eu passo por lá, pode me esperar” . Ao invés do tronco da árvore, visualizei nitidamenre a imagem daquele homem sofrido, golpeado por um objeto cortante, só que não é seiva que escorre, é sangue. Somos feitos do mesmo material, só que muitas vezes nos esquecemos disso. A verdadeira doença contagiosa e de alta periculosidade para a Humanidade é a ignorância, que alimenta preconceitos e causa alienação. Felizmente para este vírus há antídoto e o acesso à ele é fácil pois independe de condição social, economica, raça ou religião. Chama-se informação. É oferecido de bom grado e a semente é plantada no solo do coração, e um tempinho depois, nos surpreendemos com as flores e os frutos. Vamos plantar? (05/01/09) “Reencontrei um senhor durante uma sessão de quimioterapia para o tratamento de um linfoma de não-Hodgkin que já dura cerca de oito anos ... Ele calorosamente me abraça e diz: “Olha aí a minha amiga apareceu novamente. Desta vez demoramos um pouco para nos ver e já estava com saudades ... Da última vez que você me viu eu estava com cabelo e agora (tira o chápeu) estou careca” ... Digo: Mas felizmente uma coisa continua igual, não mudou nada. Ele, curioso ingada: “O que é?”. Explico: Seu sorriso, seu bom humor. O paciente salienta: “Ah, mais eu sou assim mesmo. Pode ser o dia que for sempre vão me encontrar rindo e de bom humor. Eu acredito que na vida a gente tem que agradecer por tudo. O tratamento é longo, muito sofrido, tem efeito colateral, tem dia que eu não estou bom ... eu não pedi pra ficar doente mas já que aconteceu é pra que eu aprenda alguma coisa ... e as pessoas que estão ao meu redor também ... pra que a gente cresca e evolua ... No começo eu ficava muito triste e até pensei em não me tratar, mas mudei de ideia pois a vida é um presente ... Pensa que eu fico revoltado com Deus? ... Tem gente que xinga ... mas é pior, só aumenta o sofrimento ... Tem coisa que a gente tem que passar por algum motivo que não está no nosso conhecimento ... por isso eu agradeço tudo ... as coisas boas e as ruins também ... e assim eu levo a minha vida muito mais feliz e vivo um dia de cada vez aproveintando o que cada dia tem para me ensinar”. Parabenizo a coragem e a maneira como encara as situações ... Saliento que muita gente pensa que ser corajoso é não ter medo, mas na verdade ter coragem é saber administrar esses medos que todos temos ... Me sinto à vontade para contar que me lembrei de uma historinha que um paciente me contou há alguns anos ... É a seguinte: Tem gente que olha para o céu e só consegue enxergar a escuridão e outras olham para o mesmo céu e desfrutam a beleza e a luz das estrelas. (28/01/09) 

Escrito por Sara Costa Andreozzi (Psicóloga/Atuação no apoio ao paciente na Abrale) 
Escrito por sara às 10h50
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SARA COSTA ANDREOZZI é psicóloga em São Paulo. Aprimoramento em atendimento psicossocial à família. Estudiosa da Teoria dos Campos do psicanalista brasileiro Fabio Herrmann pelo Instituto Vórtice de Psicanálise. Trabalho na Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) no apoio ao paciente e em consultório particular. 
Seja Bem Vindo ao Blog da ABRALE MÓVEL.  Desde já, sinta o nosso carinho e respeito por você através deste abraço.  Sinta-se acolhido pois você merece.
O foco da ABRALE MÓVEL é visitar os hospitais e casas de apoio para apresentar o suporte oferecido pela ong (Palestras, Encontros de Pacientes, Ciclos Profissionalizantes, Atendimento Jurídico e Psicológico gratuitos para os pacientes e familiares ... Revista e campanhas ...). Acredito que quando se lida com pessoas, principalmente durante um tratamento de doenças onco-hematológicas (Leucemia, Linfoma, Mieloma Múltiplo e Mielodisplasia) a escuta e a palavra são especialmente valiosas pela história de vida de cada um. Neste momento, fala a psicóloga que atua onde sua presença se faz necessária, seja na sala de espera de um ambulatório, no corredor, na brinquedoteca, numa sala de quimioterapia ... e até mesmo aqui na internet. Peço licença ao célebre psicanalista brasileiro (do qual estudo e admiro profundamente) Fabio Herrmann, para destacar que em sua publicação: “O divã a passeio - À procura da psicanálise onde não parece estar” de modo poético e sensível nos ensina o quanto é rico o analista se fazer presente não somente no consultório, atuação esta nomeada por “clínica extensa” e como resposta há o ganho de possibilidades outras, no qual um dos requisitos é o “ouvido do coração”.  Visito os hospitais e casas de apoio acompanhada pelo condutor Nivaldo, que é um parceiro indispensável para a rapidez de locomoção de um local para outro, bem como a eficiência do trabalho de toda equipe ABRALE, que indiscutivelmente me recebeu de portas abertas e me proporcionou a alegria de dividir um pouquinho as minhas realizações neste blog.
Sara e Nivaldo (ABRALE MÓVEL) O objetivo deste espaço é compartilhar momentos vividos que me sensibilizaram pela beleza e poesia de instantes, horas, assim como a sutileza de um olhar, de um toque. Quero dividir pequenos recortes destes momentos de intensa magia, pelo ensinamento e reflexão que nos transmite, sempre com muito cuidado ético, por isso não identificarei os envolvidos e fica a critério do leitor usar a imaginação como parte de um bom romance da vida real. Também, aproveito a oportunidade para convidar os pacientes, familiares e profissionais da saúde para montar um blog no site da ABRALE, bem como depoimentos, pois fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas e a troca de vivências faz crescer e renova as esperanças. HISTÓRIAS Relato de uma senhora de 65 anos, esposa e acompanhante do marido de 70 anos, que trata de uma Leucemia Linfóide Aguda: “Que lindo o trabalho de vocês. Parabéns. É muito mais missionário do que qualquer outra coisa. Concordo com você quando diz que a informação faz a diferença na qualidade de vida. Fica muito mais fácil enfrentar o que a gente conhece. Quando a gente não conhece o inimigo fica vulnerável e ele fica forte. Vocês são como anjos que Deus envia do céu ... Às vezes a nossa própria família de sangue não nos compreende, não tem paciência com a doença e com o tratamento, mesmo eu tendo uma filha médica. É muito bom saber que existe outra família (ABRALE) que podemos contar quando precisar. Uma família que adota não só os pacientes de câncer mas a família deles também. A gente quando acompanha sofre junto. É uma situação difícil de enfrentar. Mas a gente não pode desanimar e o trabalho de vocês é importante para isso. Na vida a gente aprende com os desafios. Ele mesmo (toca o braço do marido) melhorou bastante com a doença, ele era muito frio e dava muito valor só para o material e se esquecia das pessoas. Hoje a gente conversa mais, ele me ouve mais.” (Neste momento, esposa e marido se olham com carinho, como um casal experenciando a ternura de um começo de namoro, selado por um tímido sorriso mútuo).
Conversei com os dois na sala de quimioterapia e saí absolutamente encantada deste rico encontro, tendo a humildade de reconhecer que aprendi muito mais que ensinei. (26/11/08) Bati na porta do quarto do hospital, entrei pedindo licença e anunciando minha presença com um desejo de boa tarde. Me deparei com a cena da paciente de 40 anos de idade, paciente de Linfoma não-Hodgkin, no centro do quarto olhando atentamente para a grande janela. No lado esquerdo estava sua irmã e do lado direito sua sobrinha. Perguntei se estava atrapalhando alguma coisa. A paciente fez um gesto rápido com a mão e me chamou para olhar a vista também (gesto de extrema generosidade e afeto pois eu naquele instante não passava de uma mera estranha). Olhei e me deparei com a cena de um homem na calçada da rua segurando uma criança de aproximadamente 5 anos de idade em seus braços. A paciente com lágrimas nos olhos verbaliza: “É meu filho”. A paciente acena e manda beijos, a irmã e a sobrinha repetem os gestos, igualmente emocionadas. A irmã com certa angústia indaga: “Ela fez certo se mostrar para ele assim? A gente ficou na dúvida se deveria aparecer, pois ela (paciente) está sem cabelo e pálida, com esse monte de fio da quimioterapia. Ela fez certo?”. As três me fitam aguardando a resposta (parecendo esquecer por alguns segundos da tão importante cena da janela). Então, digo: “A alegria de vocês três aqui e a alegria dos dois lá embaixo já responde esta pergunta. Fez certo sim pois a vida é feita de momentos e precisam sem aproveitados. Mandem mais beijos e mais acenos. A vida é um presente e temos que aproveitar as oportunidades agora”. (Também mandei beijos e acenos para a criança). Ressaltei que o momento deveria ser aproveitado e as deixei para mais tarde retornar. Quando voltei, depois de ter passado nos outros quartos, a paciente já estava deitada em seu leito e juntamente com a irmã que ainda a acompanhava, divagamos na poesia da vida como é bom dizer e fazer o que se tem vontade. A paciente frisa: “Foi muito bom. Os beijos que eu mandei, eu os senti dando no meu filho. Ele não estava longe, estava perto. Posso senti-lo. Fez muito bem para mim, precisava disso, não estou sentindo mais dor e não estou mais enjoada”. (Saí com a certeza de que ela teria bons sonhos, que foram sentidos e realmente vividos). (21/11/08) Na ocasião de uma visita a um hospital infantil, tive a feliz surpresa de observar a decoração de natal na área externa do setor de oncologia. Haviam duas árvores, uma ao lado da outra, cada uma com um lindo boneco de Papai Noel. Um dos bonecos é o tradicional como é divulgado e tal como aprendemos, com roupa vermelha, gorrinho, cabelo e barba branca. Até aí nenhuma novidade. Mas você deve estar se perguntando: E o outro boneco? Vamos a ele: roupa vermelha, gorrinho (preste atenção agora) sem cabelo e sem barba. É tocante a expressão de extrema sensibilidade para com as crianças e todos os demais (familiares, funcionários ...). É um gesto que diz mais do que mil palavras pois acima de tudo representa o respeito de quem sofre e auxilia a criança no processo do tratamento, pois a criança tem uma forte identificação com os brinquedos, indispensáveis em sua vida. Este aparente "detalhe" é muito significativo e possui rica função terapêutica. Também neste mesmo local, há uma brinquedoteca que possui uma placa com cada letra de uma cor diferente, todas coloridas. O mesmo estilo foi empregado na sala de quimioterapia que passou a ser chamada de quimioteca. Espero que esta linda lição seja copiada e ampliada. Toca o coração e faz a diferença na qualidade do tratamento disponibilizado, pois ameniza o sofrimento. As voluntárias também fazem um trabalho digno de todo reconhecimento e valorização. (13/11/08)
Não deixe de acessar nosso site: www.abrale.org.br Registre seus comentários, sugestões ... no próprio Blog ou para meu e-mail: sara@abrale.org.br Rua Pamplona, 518 - 5º andar - Jardim Paulista (Próximo ao metrô Trianon-Masp) Telefone: 3149-5190 ou 0800-7739973 
100% de esforço onde houver 1% de chance 
Escrito por Sara Costa Andreozzi (Psicóloga / Atuação no apoio ao paciente na Abrale)

"Apaga o cinza de tua vida. E acenda as cores que carrega dentro de ti" (Pablo Picasso)
Categoria: Histórias
Escrito por sara às 12h16
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