SARA COSTA ANDREOZZI é psicóloga em São Paulo. Aprimoramento em atendimento psicossocial à família.   Estudiosa da Teoria dos Campos do psicanalista brasileiro Fabio Herrmann pelo Instituto Vórtice de Psicanálise. Trabalho na Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) no apoio ao paciente e em consultório particular.

   

 

Seja Bem Vindo ao Blog da ABRALE MÓVEL.

  

Desde já, sinta o nosso carinho e respeito por você através deste abraço.

 

 Sinta-se acolhido pois você merece.

 

O foco da ABRALE MÓVEL é visitar os hospitais e casas de apoio para apresentar o suporte oferecido pela ong (Palestras, Encontros de Pacientes, Ciclos Profissionalizantes, Atendimento Jurídico e Psicológico gratuitos para os pacientes e familiares ... Revista e campanhas ...).

 

Acredito que quando se lida com pessoas, principalmente durante um tratamento de doenças onco-hematológicas (Leucemia, Linfoma, Mieloma Múltiplo e Mielodisplasia) a escuta e a palavra são especialmente valiosas pela história de vida de cada um. Neste momento, fala a psicóloga que atua onde sua presença se faz necessária, seja na sala de espera de um ambulatório, no corredor, na brinquedoteca, numa sala de quimioterapia ... e até mesmo aqui na internet.

  

Peço licença ao célebre psicanalista brasileiro (do qual estudo e admiro profundamente) Fabio Herrmann, para destacar que em sua publicação: “O divã a passeio - À procura da psicanálise onde não parece estar” de modo poético e sensível nos ensina o quanto é rico o analista se fazer presente não somente no consultório, atuação esta nomeada por “clínica extensa” e como resposta há o ganho de possibilidades outras, no qual um dos requisitos é o “ouvido do coração”.

 

 Visito os hospitais e casas de apoio acompanhada pelo condutor Nivaldo, que é um parceiro indispensável para a rapidez de locomoção de um local para outro, bem como a eficiência do trabalho de toda equipe ABRALE, que indiscutivelmente me recebeu de portas abertas e me proporcionou a alegria de dividir um pouquinho as minhas realizações neste blog.

 

 

Sara e Nivaldo (ABRALE MÓVEL) 

 

 

O objetivo deste espaço é compartilhar momentos vividos que me sensibilizaram pela beleza e poesia de instantes, horas, assim como a sutileza de um olhar, de um toque. Quero dividir pequenos recortes destes momentos de intensa magia, pelo ensinamento e reflexão que nos transmite, sempre com muito cuidado ético, por isso não identificarei os envolvidos e fica a critério do leitor usar a imaginação como parte de um bom romance da vida real.

 

 Também, aproveito a oportunidade para convidar os pacientes, familiares e profissionais da saúde para montar um blog no site da ABRALE, bem como depoimentos, pois fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas e a troca de vivências faz crescer e renova as esperanças.

 

  

HISTÓRIAS

  

           Relato de uma senhora de 65 anos, esposa e acompanhante do marido de 70 anos, que trata de uma Leucemia Linfóide Aguda: “Que lindo o trabalho de vocês. Parabéns. É muito mais missionário do que qualquer outra coisa. Concordo com você quando diz que a informação faz a diferença na qualidade de vida. Fica muito mais fácil enfrentar o que a gente conhece. Quando a gente não conhece o inimigo fica vulnerável e ele fica forte. Vocês são como anjos que Deus envia do céu ... Às vezes a nossa própria família de sangue não nos compreende, não tem paciência com a doença e com o tratamento, mesmo eu tendo uma filha médica. É muito bom saber que existe outra família (ABRALE) que podemos contar quando precisar. Uma família que adota não só os pacientes de câncer mas a família deles também. A gente quando acompanha sofre junto. É uma situação difícil de enfrentar. Mas a gente não pode desanimar e o trabalho de vocês é importante para isso. Na vida a gente aprende com os desafios. Ele mesmo (toca o braço do marido) melhorou bastante com a doença, ele era muito frio e dava muito valor só para o material e se esquecia das pessoas. Hoje a gente conversa mais, ele me ouve mais.” (Neste momento, esposa e marido se olham com carinho, como um casal experenciando a ternura de um começo de namoro, selado por um tímido sorriso mútuo).

                Conversei com os dois na sala de quimioterapia e saí absolutamente encantada deste rico encontro, tendo a humildade de reconhecer que aprendi muito mais que ensinei.

(26/11/08)

 

 

            Bati na porta do quarto do hospital, entrei pedindo licença e anunciando minha presença com um desejo de boa tarde. Me deparei com a cena da paciente de 40 anos de idade, paciente de Linfoma não-Hodgkin, no centro do quarto olhando atentamente para a grande janela. No lado esquerdo estava sua irmã e do lado direito sua sobrinha. Perguntei se estava atrapalhando alguma coisa. A paciente fez um gesto rápido com a mão e me chamou para olhar a vista também (gesto de extrema generosidade e afeto pois eu naquele instante não passava de uma mera estranha). Olhei e me deparei com a cena de um homem na calçada da rua segurando uma criança de aproximadamente 5 anos de idade em seus braços.

                A paciente com lágrimas nos olhos verbaliza: “É meu filho”. A paciente acena e manda beijos, a irmã e a sobrinha repetem os gestos, igualmente emocionadas.

                A irmã com certa angústia indaga: “Ela fez certo se mostrar para ele assim? A gente ficou na dúvida se deveria aparecer, pois ela (paciente) está sem cabelo e pálida, com esse monte de fio da quimioterapia. Ela fez certo?”. As três me fitam aguardando a resposta (parecendo esquecer por alguns segundos da tão importante cena da janela). Então, digo: “A alegria de vocês três aqui e a alegria dos dois lá embaixo já responde esta pergunta. Fez certo sim pois a vida é feita de momentos e precisam sem aproveitados. Mandem mais beijos e mais acenos. A vida é um presente e temos que aproveitar as oportunidades agora”. (Também mandei beijos e acenos para a criança). Ressaltei que o momento deveria ser aproveitado e as deixei para mais tarde retornar. Quando voltei, depois de ter passado nos outros quartos, a paciente já estava deitada em seu leito e juntamente com a irmã que ainda a acompanhava, divagamos na poesia da vida como é bom dizer e fazer o que se tem vontade.

                A paciente frisa: “Foi muito bom. Os beijos que eu mandei, eu os senti dando no meu filho. Ele não estava longe, estava perto. Posso senti-lo. Fez muito bem para mim, precisava disso, não estou sentindo mais dor e não estou mais enjoada”. (Saí com a certeza de que ela teria bons sonhos, que foram sentidos e realmente vividos).

(21/11/08)

 

 

 

            Na ocasião de uma visita a um hospital infantil, tive a feliz surpresa de observar a decoração de natal na área externa do setor de oncologia. Haviam duas árvores, uma ao lado da outra, cada uma com um lindo boneco de Papai Noel. Um dos bonecos é o tradicional como é divulgado e tal como aprendemos, com roupa vermelha, gorrinho, cabelo e barba branca. Até aí nenhuma novidade. Mas você deve estar se perguntando: E o outro boneco? Vamos a ele: roupa vermelha, gorrinho (preste atenção agora) sem cabelo e sem barba.

                É tocante a expressão de extrema sensibilidade para com as crianças e todos os demais (familiares, funcionários ...). É um gesto que diz mais do que mil palavras pois acima de tudo representa o respeito de quem sofre e auxilia a criança no processo do tratamento, pois a criança tem uma forte identificação com os brinquedos, indispensáveis em sua vida. Este aparente "detalhe" é muito significativo e possui rica função terapêutica.

                Também neste mesmo local, há uma brinquedoteca que possui uma placa com cada letra de uma cor diferente, todas coloridas. O mesmo estilo foi empregado na sala de quimioterapia que passou a ser chamada de quimioteca. Espero que esta linda lição seja copiada e ampliada. Toca o coração e faz a diferença na qualidade do tratamento disponibilizado, pois ameniza o sofrimento. As voluntárias também fazem um trabalho digno de todo reconhecimento e valorização.

(13/11/08)




Não deixe de acessar nosso site: www.abrale.org.br

Registre seus comentários, sugestões ... no próprio Blog ou para meu e-mail: sara@abrale.org.br 

 

 

Rua Pamplona, 518 - 5º andar - Jardim Paulista (Próximo ao metrô Trianon-Masp)

Telefone: 3149-5190 ou 0800-7739973

 

 100% de esforço onde houver 1% de chance 

 

Apaixonado

Escrito por Sara Costa Andreozzi (Psicóloga / Atuação no apoio ao paciente na Abrale)

 

"Apaga o cinza de tua vida. E acenda as cores que carrega dentro de ti"
(Pablo Picasso)