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DIVÃ-MÓVEL: AO ENCONTRO DO CÂNCER

Sara Costa Andreozzi

(Trechos selecionados do artigo apresentado no VI Encontro da Teoria dos Campos realizado no dia 08/08/10 na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo).

 

 

"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar". (Clarice Lispector)

 

   

 

            Em São Paulo represento à ABRALE (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) na qual visito hospitais e casas de apoio. O departamento é nomeado por Abrale-móvel, o que me faz pensar na ideia de Divã-móvel e no conceito de clínica extensa.

           Acredito que quando se lida com pessoas, principalmente durante o tratamento de doenças onco-hematológicas, a escuta e a fala são essencialmente valiosas pela história de vida de cada um. Neste momento, fala a analista que atua onde sua presença se faz necessária, seja na sala de espera de um ambulatório, na brinquedoteca, numa sala de quimioterapia e até mesmo no blog (www.sarapsi.zip.net) especialmente elaborado para promover um espaço de reflexão aos pacientes, familiares e profissionais de saúde.

            O psicanalista brasileiro Fabio Herrmann, de modo poético e sensível nos ensina o quanto é rico o analista se fazer presente não somente no consultório, atuação esta nomeada por clínica extensa, e como resposta há o ganho de possibilidades outras, sendo um dos requisitos, ouvir o paciente com o coração.

            A Teoria dos Campos criada por Fabio Herrmann propõe reflexões sobre o inconsciente pela utilização do método interpretativo de investigação e cura das manifestações psíquicas. Assim, é possível pensar novas possibilidades de atuação do psicanalista no consultório ou fora dele, como por exemplo no hospital, na cultura, nas artes etc., recuperar o que foi esquecido pelo tempo. (Barone, 2005). 

            Fabio Herrmann em seu texto introdutório sobre a clínica extensa, resgata a ideia proveniente da criação da psicanálise ao relembrar que Freud voltou seu olhar clínico e seu interesse para o mundo. Esta é a definição de clínica extensa. (Barone, 2005). 

            Em toda e qualquer dimensão que a psicanálise esteja, um campo pode romper-se abrindo um leque de inúmeras possibilidades de existir, eis a função terapêutica da clínica extensa. (Barone, 2005).

           A escuta do analista e o “diálogo desencontrado, equivocado, em que, na aparência, os temas não se cruzam”, é o espaço para o surgimento de sentidos outros, novos, promovidos pela interpretação. (Barone, 2005 p. 35). 

           O objetivo do encontro terapêutico e papel do analista é trazer à baila conteúdos inconscientes anteriormente desconhecidos pelo analisando, eventos estes originados de experiências passadas que exercem grande influência nas relações interpessoais atuais. (Aldolfi, 1996). Isso se dá pela aplicação do método psicanalítico, a cada interpretação ou toques interpretativos. 

            Toda dor é real para quem sente. Não existe separação entre corpo e alma para o inconsciente. 

           Creio que neste jogo transferencial, a clínica psicanalítica se faz presente pela fala e as associações livres carregadas de representações que, indiscutivelmente nos insere num mundo de possibilidades altamente significativas, tanto para o paciente quanto para o analista. 

          Fabio Herrmamm nos ensina que a clínica extensa tem uma função terapêutica marcada pela transferência maciça, base das relações. 

          Sem dúvida alguma, o contato humano em todas as suas dimensões, repletos de momentos ricos de aprendizado e afeto compartilhado, faz a diferença entre o viver e o morrer.

         Como observa Frayse, o analista deve permitir aflorar a poética desconhecida de cada paciente, o que torna o trabalho artístico e criativo pois “cada paciente é uma singularidade a ser acolhida” e cada momento é único. (Monzani & Monzani, 2008 p.291). 

         É da habilidade e criatividade do analista propiciar o surgimento do conteúdo analítico de cada sessão e utilizar essa intensidade de forças como motor de uma análise ou função terapêutica em benefício do paciente. Aprendemos muito nestas trocas e com cada vivência. Nesse sentido, mesmo com vasta experiência clínica, por tudo que nos é mobilizado no encontro terapêutico, somos eternos “principiantes”.

ADOLFI, M., A linguagem do encontro terapêutico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. (Tradução de Rosana Severino Do Leone).           

HERRMANN, F. Clínica extensa. In: Barone, L. (org.) A psicanálise e a clínica extensa – III Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos por escrito. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.

MONZANI, J. & MONZANI, L. R. (orgs). Olhar: Fabio Herrmann – Uma vigem Psicanalítica. São Paulo: Pedro e João Editores / CECH- UFSCar, 2008.

 

 

   

 

Na correria Mais informações sobre a Teoria dos Campos, acesse o site http://www.revistavortice.com.br/

 



Escrito por sara às 11h15
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